
Embora não exista consenso quanto a data exata do reaparecimento do unicismo no vigésimo século, alguns autores têm proposto o ano de 1913 como o marco de sua restauração. Foi durante um acampamento em Los Angeles, na Califórnia, em 15 de abril de 1913, que um pregador canadense o Rev. R. E. Masclester, passou a ensinar que a verdadeira fórmula do batismo é em “nome de Jesus”. Sua mensagem foi recebida por uns e rejeitada por outros. Entre eles estava John. G. Sheppe, fundador de um movimento que ficou conhecido como “Só Jesus”, e o evangelista Frank Ewart. O unicismo chegou ao Brasil através do chileno Juan Bautista Álviar.
O batismo em nome de Jesus é a pedra fundamental do movimento unicista, seja em qual for a sua modalidade. Toda uma contra-argumentação é levantada em torno de Atos 2.38, tendo como objetivo legitimar sua crença. Em contrapartida, não existe uma única explicação para Atos 2.38, mas sim um conjunto de idéias e informações que unidas podem nos levar a um consenso. De maneira que não importa que tipo de argumento é usado para explicar o texto, desde que se compreenda que a distinção entre as pessoas da divindade era um fato resolvido entre os cristãos primitivos. Na busca por respostas, foram desenvolvidas as seguintes explicações:
- Mateus 28.19 não fazia parte do texto original;
- Atos 2.38 é uma variação textual;
- Não havia uma fórmula batismal definida;
- O texto grego de Atos 2.38 não fazia alusão ao batismo, mas uma confissão publica de pecados;
- O batismo em nome de Jesus foi destinado apenas aos judeus e prosélitos do judaísmo;
- Pedro não compreendeu o ensino de Jesus;
- Jesus empregou uma figura de linguagem;
- O uso do termo “nações”, que em grego é traduzido por “gentios”, sugere que o batismo em nome do Pai, Filho e Espírito Santo foi destinado especificamente aos gentios.
Embora não concordamos com tudo que é exposto no campo acadêmico, tais explicações são importantes no sentido que elas nos fornecem um leque muito grande de investigação. Mesmo supondo que Mateus 28.19 não fazia parte do texto original, e que o batismo em nome de Jesus era o único conhecido da igreja, seria isso suficiente para provar que a doutrina da trindade é antibiblica? O mesmo acontece com Marcos 16.9-20. Apesar de toda polêmica criada em torno dessa passagem, de ser ela ou não parte do texto original, nada influiria na grande comissão de Cristo. O ide de Jesus continuaria a ecoar pelos corredores da Igreja.
O que cria a Igreja Primitiva
A igreja primitiva não possuía um corpo definido de doutrinas, embora Atos 2.42 mencione a doutrina dos apóstolos. Na verdade, até meados do terceiro século da Era Cristã, praticamente nenhuma doutrina havia sido formulada. Não havia, por exemplo, uma fórmula definida para a benção apostólica, como vemos nas seguintes passagens:
"O meu amor seja com todos vós em Cristo Jesus. Amém." (I Cor.16.24)
"A graça de nosso Senhor Jesus Cristo seja, irmãos, com o nosso espírito! Amém. "(Ef. 6.24)
"A graça seja convosco. Amém." (Cl. 4.18).
Mais tarde, convencionou-se ministrar a benção apostólica baseada no modelo de 2 Corintios 13.13. Outras doutrinas foram estudadas e posteriormente organizadas em cremos. Os concílios foram de fundamental importância neste processo. O primeiro foi realizado em Jerusalém, por volta de 49 d.C., e discutiu a questão da circuncisão. A única passagem que parece apresentar uma forma de cremos, é Efésios 4.4.-6. Entretanto, somente apareceu 30 anos após a fundação da Igreja, e não abrangia todos os aspectos da fé cristã.
Embora a igreja primitiva não possuísse um conceito definido da doutrina da Trindade, ela certamente compreendia que existe uma distinção entre as pessoas da divindade. Tal distinção pode ser vista pela maneira como eles se referiam ao Filho, numa distinção clara com o Pai.
“A este Jesus Deus ressuscitou dos mortos, do que todos nós somos testemunhas”. (Atos 2.32)
“Exaltado, pois, à destra de Deus, tendo recebido do Pai a promessa do Espírito Santo, derramou isto que vedes e ouvis”. (2.33)
“Esteja absolutamente certa, pois, toda a casa de Israel que a este Jesus, que vós o crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo”. (2.36)
“O Deus de Abraão, de Isaque e Jacó, o Deus de nossos pais, glorificou a seu servo Jesus”. (3.13)
“Tendo Deus ressuscitado ao seu servo, enviou-o primeiramente a nós...”.
(3.26)
“Levantaram-se os reis da Terra, e as autoridades ajuntaram-se à uma contra o Senhor e contra o seu ungido”. (4.26)
“Porque verdadeiramente se ajuntara, nesta cidade contra o teu santo servo Jesus, ao qual ungiste...”. (4.27)
“Enquanto estendes a mão para fazer curas, sinais e prodígios por intermédio do nome do teu santo servo Jesus”. (4.30)
“O Deus de nossos pais ressuscitou a Jesus, a quem vós matastes...”. (5.30)
“Deus, porém, com a sua destra, o exaltou a Príncipe e Salvador, a fim de conceder a Israel o arrependimento e a remissão de pecados”. (5.31)
“E logo pregava, nas sinagogas, a Jesus, afirmando que este é o Filho de Deus”. (9.20)
“Como Deus ungiu a Jesus de Nazaré com Espírito Santo e poder, o qual andou...”. (10.38)
“Esta é a palavra que Deus enviou aos filhos de Israel, anunciando-lhes o evangelho da paz, por meio de Jesus Cristo. Este é o Senhor de todos”. (10.39)
“Porquanto estabeleceu um dia em que há de julgar o mundo com justiça, por meio de um varão que determinou e acreditou diante de todos, ressuscitando-o dentre os mortos”. (17.31).
As passagens citadas acima são suficientes para provar que Jesus, embora da mesma natureza do Pai, não são a mesma pessoa. Em momento algum Jesus é chamado de Pai, ou mesmo Espírito Santo. O unicismo argumenta que a distinção existente entre Pai e Filho era apenas de “papéis” ou “manifestações”; não havia, portanto, uma distinção de pessoas. O que não se entende com relação ao unicismo, é o porquê de todo este malabarismo divino. A descrição que eles fazem de Deus é, sem dúvida alguma, uma verdadeira encenação teatral. É justamente esse o conceito que se tem do Filho – a de um personagem usado temporariamente pelo Pai. Consequentemente, não haveria Filho de Deus como pessoa espiritual.
Batizados em nome de títulos?
Concordo plenamente que Pai, Filho e Espírito Santo são títulos e não nomes. No entanto, é importante frisar que o batismo não é “em nome de títulos”. Embora Pai, Filho e Espírito Santo possuam diversos nomes, o batismo não é administrado invocando cada um deles. Imagine a confusão que seria caso resolvêssemos pronunciar cada um dos nomes do Filho no batismo. E o que dizer do Pai e do Espírito Santo? Seria difícil, portanto, para uma igreja que começava a dar seus primeiros passos se ver presa a uma discussão interminável de nomes. Portanto, quando lemos “em nome do Pai”, deve ser entendido “na autoridade de” ou “na qualidade de”. O batismo é administrado na autoridade da pessoa do Pai, do Filho e do Espírito Santo, não importando quantos nomes cada um possa ter. Acresce o fato que essa era uma forma pública, senão culta, de expressão. Era comum em declarações públicas, ou em reuniões solenes, cuja ocasião requeria o uso de uma linguagem formar.
Mateus 10.42 é um bom exemplo do que estamos tentando provar. A expressão “em nome de discípulo” pode ser entendida de duas maneiras(a) “na autoridade de”; (b) “na qualidade de”. Obviamente, Jesus não tinha em mente uma expressão literal, como se discípulo fosse mesmo um nome. O mesmo acontece em Lucas 6.13, com a expressão “... a quem também deu o nome de apóstolos”. Seria apóstolo um nome? Jesus emprega uma figura de linguagem conhecida como metonímia – emprego de uma palavra por outra, baseando-se em uma relação constante entre as duas. Tal não se pode dizer de Marcos 16.18, uma vez que o nome de Jesus aparece nitidamente subtendido. Tratando-se de Mateus 28.19, a expressão mais correta seria “na autoridade de” querendo expressar a autoridade sua generis de cada uma das pessoas da divindade.
O uso do singular “em nome”
“Jesus deu a ordem: “batizando-os em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo”. Ele ordenou o batismo “em nome”. Por que ordenou Jesus o batismo “em nome”? Porque creram e guardaram sua palavra. Mateus certamente se manifestaria, caso Pedro tivesse desobedecido o senhor”. [2]
Não é preciso ser Ph.D em literatura para saber que o uso do singular “em nome” é uma expressão distributiva como no texto de Gêneses 48.16.
“O anjo que me livrou de todo mal abençoe estes rapazes, e seja chamado nele o meu nome, e o nome de meus pais Abraão e Isaque...”.
Não é porque a palavra “nome”, no singular, é usada para se referir a três pessoas diferentes (Abraão, Isaque e Jacó) que eles seriam a mesma pessoa, ou que teriam um mesmo nome. Trata-se apenas de uma expressão distributiva, muito comum na literatura hebraica e grega. Vejamos outro exemplo.
“E era o nome deste homem Elimeleque, e o de sua mulher Noemi, e os de seus dois filhos Malon e Quilion...”. (Rute 1.2)
Novamente encontramos uma expressão distributiva. A palavra “nome” é usada para se referir tanto a Elimeleque, como a sua mulher e seus dois filhos. Em textos refinados, como em Rute 1.2, o autor geralmente usa uma forma culta de escrita, obedecendo aos padrões ortográficos e gramaticais da língua em que escreve. O texto de Mateus 28.19 ficaria por de mais jocoso e com pouca fluidez caso o autor decidisse repetir a expressão “em nome” para cada uma das pessoas mencionadas. O mesmo aconteceria se alterássemos o sentido de Gêneses 48.16 e Rute 1.2.
Para fugir a tal argumento, David K. Bernard recorre a seguinte explicação:
“Para dirimir qualquer dúvida de que a distinção singular – plural seja significativa ou tenha sido deliberadamente planejada por Deus, precisamos, apenas, ler Gálatas 3.16, onde Paulo da ênfase ao significado do singular “teu descendente”, referindo-se a Gêneses 22.18”.
Seja qual for o significado teológico que Paulo empregou em Gálatas 3.16, o que nos compete é avaliar o uso do singular “posteridade”. Se as promessas que Paulo se refere são as mesmas de Gêneses 22.18, então temos que analisar seu contexto. Fica claro por uma leitura de Gêneses 22.17 que o singular “descendente” ou “semente” são expressões distributivas, como pelo uso das comparações “estrelas do céu” e “areia do mar”. Deus prometeu que abençoaria e multiplicaria a descendência de Abraão. É por meio de Jesus que somos filhos de Deus e herdeiros da promessa (Gálatas 3.22, 26, 29).
Onde estava Mateus?
“A julgar pela controvérsia sobre o modo bíblico correto do batismo nas águas, isto é, se deveríamos batizar segundo Mateus 28.19, ou segundo Atos 2.38, poderíamos pensar se Mateus fosse um indivíduo descuidoso, talvez não tão mentalmente alerto quanto os outros apóstolos, ou que talvez não estivesse presente no Dia de Pentecostes, quando Pedro declarou que o batismo nas águas deveria ser administrado em nome de Jesus Cristo para a remissão de pecados. Absolutamente nada foi mencionado no Dia de Pentecoste de um batismo em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo, e muito menos em qualquer outro lugar ou tempo, onde o batismo foi administrado. Por quê? Onde estava Mateus? Não defenderia ele seus escritos?” [3]
Tal questionamento se resume em um grave erro. O evangelho de Mateus não havia sido ainda escrito, quando Pedro e os demais apóstolos realizam o primeiro batismo em Jerusalém (Atos 2.38). Há, pelo menos, um espaço de trinta anos entre a fundação da Igreja (30 d.C) e a origem do Evangelho de Mateus, que somente apareceria em 60 d.C. Portanto, não somente Mateus, mas todos os que estiveram com Jesus após a ressurreição e receberam dele a grande comissão, poderiam igualmente se opor a declaração de Pedro. Mas parece que assim não aconteceu, como também não houve qualquer contestação ao repúdio de Pedro aos gentios, mesmo sabendo que o texto hebraico de Mateus 28.19 incluía principalmente eles.
Que a igreja primitiva possuía um conceito oposto ao unicismo, não resta nenhuma dúvida. Atos 2.38 é uma continuação ao que vinha sendo discutido desde o versículo 36. Fica evidente, portanto, que a compreensão que Pedro tinha do Filho, não era a de que Ele seria o Pai, ou mesmo o Espírito Santo. Tal não era a situação. Pedro, tanto quanto os demais apóstolos da igreja primitiva, insistiam em reconhecer Jesus como Filho de Deus, e não como Espírito Santo.
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